Mistura de poesia, sonho e realidade

>> 9 de julho de 2012


Diretor dos documentários em média-metragem Miramar - um olhar para o Mundo (2002) e Hassis, uma autobiografia inventada (2005) - co-dirigidos com Marco Martins - e do curta-metragem Se eu Morresse Amanhã (2009), Ricardo Weschenfelder, 34, teve seu último trabalho - o curta Dicionário (2012) - convidado para abrir o 1º Festival de Cinema de Blumenau. Formado em Cinema pela UNISUL, Ricardo nasceu em Passo Fundo (RS) e atualmente mora em Blumenau. Influenciado pelo cinema autoral de Kubrick, Antonioni, Tarkovsky, Michael Haneke e Lucrecia Martel, o diretor conversou conosco por e-mail sobre a experiência de o “Dicionário”, na estrada. “Dicionário” é uma adaptação do conto “O guarda-noturno” (1986) do escritor e poeta catarinense Lindolf Bell. O próximo compromisso do filme é a exibição na mostra competitiva do 40º Festival de Gramado, em agosto.

O curta-metragem “Dicionário” realizou sua pré-estreia em Timbó na Casa do Poeta Lindolf Bell e foi o filme de abertura do Festival de Cinema de Blumenau em abril, como foi a recepção inicial da obra?
Acho que foi muito boa. O filme é uma adaptação de um conto do Lindolf Bell (O Guarda-Noturno) e tem toda a inspiração na cultura do Vale. Não poderíamos ter estreado em outro lugar que não em Timbó e Blumenau. O convite para participar da abertura do Festival de Cinema de Blumenau foi uma honra. A sessão no Festival foi especial principalmente por ser estréia e pela interação com o público, que é familiar ao tema, a obra do Lindolf Bell, aos lugares e imaginário da região. O debate depois da exibição foi intenso e enriquecedor para toda a equipe. O mais bonito foi ter recebido o retorno do público de que conseguimos fazer um filme que respeitou a obra do Lindolf Bell e dialogou com a sua linguagem poética.      
        
Comente sobre a trajetória e repercussão do curta até agora, quase três meses depois da pré-estreia em Timbó e Blumenau.
É louco que o filme depois de pronto segue sua vida quase sozinho. Em junho participamos do FAM - Florianópolis Audiovisual Mercosul -  e foi muito bem recebido. Foi interessante perceber que, mesmo um público que não se identifica com a cultura do Vale, mesmo assim reconhece aspectos mais universais do filme (e que são centrais no conto do Bell) como a magia das palavras, a importância da imaginação e da cultura para as pessoas.            
Nessa semana tivemos a grande notícia de que o filme foi selecionado para o Festival de Cinema de Gramado. É um festival importante e me faz acreditar que não sou um louco sozinho. Tem mais pessoas que gostam do filme e querem ver filmes assim.   

Qual a tua primeira lembrança do encontro com a literatura de Bell?
Conhecia a poesia do Lindolf Bell e foi uma grata surpresa descobrir a prosa dele com o conto O Guarda-Noturno. O texto não saía da minha cabeça. Ficava imaginando aquele personagem solitário na biblioteca à noite, lendo os livros, percorrendo os corredores com a lanterna na mão, fantasiando coisas. A mistura de sonho e realidade. O conto é muito cinematográfico, visual e, o que acho mais importante acima de tudo: tem profundidade psicológica e existencial. Com o projeto do filme tive que pesquisar mais sobre a poesia do Bell e percebi que muitos elementos se relacionavam e apareciam sempre como os insetos, o rio, os operários das fábricas, o sobrenatural, a terra etc. Fiz um movimento de misturar todos esses elementos literários que são recorrentes e importantes para entrar no universo do Bell.

Existiram desafios no processo de adaptação de um conto para o formato curta-metragem?
O primeiro desafio acho que é não cair no literal, no descritivo, ser burocrático com o texto. Fazer exatamente o que está escrito. Para isso, foi importante, como já falei, relacionar a poesia do Bell com o conto. Não ficar só preso ao conto e buscar outras imagens do universo do Bell. Apesar de a estrutura do conto estar no filme, procurei fazer pequenas subversões, mudando algumas coisas de lugar.   
Outro desafio era passar o turbilhão de emoções do personagem somente com imagens, sem diálogo. Acho que conseguimos. O Ivo Müller é um grande ator e entendeu isso muito bem. O filme é muito introspectivo e silencioso como a visão desse personagem, que é um leitor silencioso do mundo a sua volta, como num livro.   
Outro ponto é reduzir a narrativa do conto para um filme de 15 minutos. Tivemos que ser sintéticos e priorizar algumas coisas. Extrair o essencial do texto do Bell para não ficar algo sem sentido e sem uma linha coerente.  

O ator catarinense Ivo Müller, que faz o papel do protagonista, carrega um olhar bem criado que permite que mergulhemos no fantástico junto com ele. Como foi trabalhar em cena essa presença marcante e ao mesmo tempo sutil? 
O Ivo entrou totalmente no clima. Ele leu o Lindolf Bell. Nos ensaios ele se transformava naquele personagem. Interessante que o Ivo criou um método de atuação baseado nos pés. Na casa do personagem ele ficava descalço, com os pés na terra, no jardim. Na biblioteca ficava com um coturno. E isso fez toda a diferença pra ele sentir o “chão” do personagem, onde ele pisava. Na biblioteca o Ivo achou um livro (como o personagem) de poesias do Mário Quintana, que tinha um poema que dizia que a única coisa que ia sobrar se o mundo acabasse era um dicionário. Esse livro nos acompanhou também nas filmagens. A equipe entendeu e respeitou o silêncio e a preparação do Ivo no set. A escolha da equipe é fundamental também. Escolher profissionais que tenham a ver com aquela linguagem, com aquele universo do filme. Que entendem a história que tu quer contar já é meio caminho andado.        

Qual a importância de perceber as diferentes maneiras que o filme atinge o público?
Sei que não é um filme fácil, que vai agradar todo mundo. Não é o tipo de filme que passa na TV, que as pessoas estão acostumadas a ver no cinema do shopping. É, ainda por cima, um curta-metragem, que tem um circuito de exibição restrito. Vai participar de festivais de cinema e, quem sabe, passar na TV.
Quis fazer um filme para contemplar a imagem e instigar a imaginação, as sensações, como os poetas fazem. O mais gratificante é ouvir pessoas dizendo que ficaram com uma imagem do filme na cabeça. Em uma exibição na FURB para uma turma de segundo grau (ETEVI), um aluno me perguntou se o dicionário era uma metáfora. Ele entendeu o filme! Para essa geração da internet ele se conectou com o mundo do Lindolf Bell. E isso já valeu. Na exibição no Festival de Cinema de Blumenau, uma professora escreveu um poema em cima do filme. Isso é demais. Vale mais do que um milhão de espectadores que não lembram o que viram semana passada.             

Após circular nos festivais e mostras e colher frutos merecidos do atual trabalho, podemos esperar algum novo projeto a caminho? 
O próximo curta-metragem é o Talvez Neve na Serra, uma história de uma senhora de idade que fica sozinha (gosto dos personagens solitários) em casa enquanto a sua filha, que é repórter do tempo da televisão, vai cobrir a chegada da neve na Serra Catarinense. Mas acontece que a neve não chega nunca. A senhora fica sozinha em casa e acontecem várias coisas. Posso dizer que no final vai nevar na praia. É uma história sobre a relação entre mãe e filha, sobre distância e ligação afetiva. É um filme muito intimista. Um filme de atores. De planos muito próximos. Estamos inscrevendo em editais de cinema. Vamos aguardar. Enquanto isso, vou pensando no filme, que é divertido também.  

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